Moreira do Rei
Outrora chamada de "Moraria Regis", Moreira do Rei foi um importante couto anexo ao concelho de Monte Longo até às reformas liberais do século XIX. Os primeiros documentos que apareceram sobre esta terra são do ano 951 e referem-se a uma doação de D. Ordonho, rei de Leão, Villa Moraria ao Mosteiro de Guimarães, fundado nessa altura pela Condessa Mumadona. Foi antigamente da coroa e depois passou para a casa de Bragança.
D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, por volta do ano 1180 dá o foral ao Couto de Moraria.
Mais tarde o Couto de Moraria pertence à coroa e na sua administração íntegra um juiz ordinário com jurisdição no civil, crime, órfãos, etc., e possuía também um pelourinho e Casa de Câmara, funcionando autonomamente.
Terra privilegiada ao longo dos tempos, Moreira do Rei foi um couto real como prova um marco de delimitação de couto e que pode ser observado no "confurco".
Moreira do Rei foi chamado ao longo dos tempos Villa Moraria, Moraria de Montelongo, Moraria Régis e Moreira Régis.
- Escudo de prata, com um cômoro de verde, movendo uma campanha ondeada de prata e azul de três tiras e, brocantes, duas trutas de prata realçadas de negro.
- Coroa mural de quatro torres.
- Listel branco, com legenda a negro: «MOREIRA DO REI»
O Visconde de Moreira do Rei
O Visconde de Moreira de Rey, de seu nome António Augusto Ferreira de Mello e Carvalho, nasceu na Casa do Foral, em Moreira do Rei, casa de sua mãe, em 19 de Julho de 1838. Era filho do Conselheiro Joaquim Ferreira de Mello, que fundou por volta de 1842, a Fábrica do Ferro.
Em 1858 tirou em Coimbra o Bacharelato de Direito, abrindo banca de advogado no Porto.
Colaborou em diversos jornais, com destaque para o Comércio do Porto, Gazeta dos Tribunais, de Lisboa e Jornal da Jurisprudência, de Coimbra. Entre 1863 e 1866 publicou vários livros de Direito, entre os quais Teoria do Direito Hipotecário e do Registo Predial (1866).
Casou em 1867 com uma filha do 1.º Conde da Trindade, da cidade do Porto.
Além de Vogal do Supremo Tribunal Administrativo, foi eleito Deputado entre os anos de 1868 e 1879, pronunciando eloquentes discursos no Parlamento.
O título de Visconde foi-lhe outorgado pelo Rei D. Luiz I, a 22 de Agosto de 1870; além do título, foi distinguido como Membro–Fidalgo da Casa Real, Comendador da Ordem de Carlos III de Espanha e Membro da Academia de Jurisprudência de Madrid.
No ano de 1877, foi-lhe atribuído Brasão de Armas.
O Visconde foi Presidente da Câmara de Fafe nos anos de 1878, 1879, 1880 e 1881, pela maioria do Partido Regenerador.
O Visconde de Moreira de Rey exerceu também o cargo de Procurador da Câmara de Fafe à Junta Geral do Distrito, para que foi eleito nos anos de 1860 e 1862.
Crê-se que a lenda da Justiça de Fafe teve origem num duelo do Visconde com um seu colega deputado, ao que parece um Marquês. As armas escolhidas pelo fafense foram dois varapaus e o seu adversário apanhou uma grande sova; a cena provocou grande hilaridade nos assistentes, que se puseram a gritar: «Viva a Justiça de Fafe!».
O Visconde de Moreira de Rey, faleceu em Lisboa no dia 9 de Outubro de 1891, com apenas 53 anos de idade.
Foi amigo durante muitos anos do escritor Camilo Castelo Branco.
(Luís Gonzaga Pereira Silva, "Fafenses Nascidos no séc. XIX", 2ª ed., 2009, pp. 46-48)
19.07.1838 - 09.10.1891
Casa do Foral - casa onde nasceu, Moreira do Rei
Poema: O VISCONDE DE MOREIRA DE REI
“É Fafe povoação muito moderna,
contando um século, apenas, de existência.
De Moreira de Rei foi subalterna
e sobre ela alcançou magna ascendência.
Na terra decadente, em fruto avonde,
havia outr`ora um nobre, altivo e ousado;
de Moreira de Rei era Visconde,
politico influente e Deputado.
Homem franco e leal, de poucas tretas,
Não ligava à coroa e aos brasões;
Se o feriam, largava as etiquetas,
correndo o atrevido a bofetões.
Nas Cortes, certo dia, a uma sessão
a tempo não chegou; e um tal Marquês,
supondo que o Visconde era vilão,
censurou-o em gesto descortês.
O Visconde, que entrara pressuroso,
Inda ouviu do Marquês o insulso estilo
em que ele lhe chamava “cão tinhoso”,
mas sentou-se, fingindo-se tranquilo.
Finda a sessão, ao Marquês petulante
a frase censurou, de audácia rara;
porém este, num gesto provocante,
arremessou-lhe a fina luva à cara.
Ajustou-se o duelo; e competia
a escolha das armas ao Visconde.
Marcou-se p`ra o encontro a hora
e o local, que eu nunca soube aonde.
Ocultos da Policia e dos meirinhos,
no sitio da pendência, o fidalgote
Compareceu, assim como os padrinhos.
Veio o Visconde e um homem c`o um caixote…
e dentro deste as armas escolhidas
pelo visconde: as armas dos pataus!
Nem `spadas nem pistolas homicidas:
Eram dois resistentes varapaus!!!
O Marquês, em tais armas algo inepto,
ao ver aqueles paus de marmeleiros,
forçado a aceitar o estranho repto
pegou por sua vez num dos fueiros.
Começou a sessão de bordoada;
e o Visconde, com a mor placidez,
deu-lhe tanta e tão pouca fueirada
que o lombo poz num feixe ao tal Marquês.
Mau grado tudo ser gente de sizo,
os presentes, em vez de lamentar,
não conseguiram sufocar o riso,
findando o duelo em gargalhada alvar.
Da hilaridade ao ver o desaforo,
aonde gente; e além daquela gafe,
começam todos a gritar em coro;
“-Oh! Viva! Viva a Justiça de Fafe!!!”
De Moreira de Rei, pois, ao Visconde,
do duelo a propósito descrito,
se deve a origem, que a História esconde,
do ventilado e tão estranho dito”.